7.11.2006

Capítulo IV

O Regresso de Piccolli, o anão

Conheci Piccolli numa daquelas noites de copos no Bairro logo após a Squadra Azzurra ter ganho o ceptro mundial. Pequeno, ágil e de lábia à italiana, desde logo motivou entre todos nós uma enorma empa e simpatia. Apesar da sua estatura, devo dizer-vos que batia aos pontos muitos dos Tugas que ali estavam fazendo-se ao nosso grupo de míudas. Piccolli era aliás o centro das atenções delas, sempre com aqueles gestos característicos dos maffiosi. Tínhamos “estacionado” por perto da Tasca do Francisco, um amigo dos tempos da primária, e nosso habitual retiro para as “Conferências”. Piccolli, uma vez que já se tinha integrado e jurado fidelidade aos princípios da comunidade, acabou por ser incluído na nossa assembleia.

MaFeBoPeMa havia chegado de táxi, como usual 20 minutos depois da hora marcada. Tínhamos convocado a reunião magna por força do ultimo atentado de Kappinha. Um plano radical era preciso ou entao enveredar por uma politica mais severa de controle das acções no âmbito da comunidade: quem está connosco, está, quem não está, está fora. MaFeBoPeMa era um pouco a antítese desta tese, pois nunca estava bem bem com ninguém a 100%...estava sempre a 99%...enfim. Fala-me-barato tinha trazido uma combinação nova do nosso traje de “guerra”, uma griffe supostamente desenhada pela Fátima Lopes, no seguimento do que tinha feito para a Selecção no Mundial. Super Guitar continuava agarrado, como sempre nos últimos meses, ao seu novo brinquedo, um PowerToy 453vb Pró, um celular teletransportador que era o ultimo berro em termos de tecnologia. Alem do trio eléctrico, Lencas-Shter, uma tuga de origem Celtibera, com excelente sotaque inglês e uma capacidade para nos por sempre bem dispostos. Também estava o Sr. Fantasia, um amigo, um vegetariano, um esquisito para uns, mas uma referência na arte do bem desenhar Manga, em Portugal. Tinha uma extensa obra de livros de comics porno-eroticos já publicados e o seu nome era visto como um guru lá fora. A nossa agente Camila_Castela_Branca (CCB) tinha produzido um relatório pormenorizadíssimo sobre o atentado e esperava por novas decisões.

“Acho que temos de agir. Eu acho que temos de contornar este problema…Cada um acha uma coisa…pois…temos que efectuar uma reflexão estratégica. Pensar como queremos que a nossa comunidade esteja daqui a 5 anos, como queremos que compita com os actuais e novos concorrentes, como queremos continuar a recrutar os melhores.” Apesar de sermos relativamente recentes, tínhamos ganho uma consistência e uma excelente reputação no mercado. Contudo a organização cladestina de Kappinha estava a ganhar terreno, dia após dia. Já começava a tentar controlar algumas das nossas portas e tinha recolhido informações sobre os negócios de MaFeBoPeMa. Cá_bela_eira, a CEO da Unhas’são Nossas, tinha sido abordada por uma cliente, que dizia ter sido sondada por elementos ligados a Kappinha, ainda no avião que os trazia da Alemanha alguns dias antes. Queria saber pormenores da nossa organização…apenas por curiosidade.

Por nossa iniciativa, tínhamos já instituído mecanismos de reporte interno e controle, ao nível das melhores auditoras do mundo, bem como definido um modelo de governo da organização que fazia inveja a muitas empresas da terra do Tio Sam.

Mas faltava algo mais, aquela ferramenta, qual scorecard que nos levasse a ultrapassar as manhas e jogadas baixas de Kappinha.

Ficou decidido que, em consonância com as novas regras de contabilidade internacionalmente aceites, iríamos procurar contratrar uma equipa de consultores de renome em questões de terrorismo psicológico-asami, que já tivesse experiência em controlar apetites vorazes de cones de salmão em restaurantes japoneses e ao mesmo tempo que estivesse credenciado como um especialista na arte de dobrar pessoas de má índole. Kappinha estava na mira.

SeGe foi encarregado de iniciar a procura por terras de Barcelona, pois um amigo nosso, Ronny, o “Gaúcho”, tinha dado boas indicações quanto a agentes por aquelas bandas. Os restantes foram incumbidos de desenhar, ao passo de uma ou varias cartadas, uma taskforce capaz de impedir novas acções de K.

E piccolli? Piccollo Piccolli ficou connosco. Decidiu que queria alistar-se e ser um agente no terreno. Dado o triunfo italiano no futebol, decidiu que iria procurar como trabalho de disfarce, uma vaga num plantel de uma grande clube tuga…ALTO!

Unanimemente (não contamos com Fmb) decidimos que só poderia haver um clube capaz de receber tal portento: O Glorioso, El Glorioso, Il Glorioso, The Glory one, Das Gloryest!

Viva Piccolli no Benfas.

7.10.2006

Capítulo III

Morrem as bois…ficam as vacas.

Bom, em si mesmo, este provérbio serve muitos propósitos, mas o de caracterizar a história do que se passou no fim-de-semana seguinte é a que mais se adequa.

Ora pois…primeiro os bois. O nosso amigo ZiZou quis ficar na história. A maior marrada e mais mítica machadada na carreira de um jogador de futebol que mesmo assim não pode deixar de ser consagrado como o melhor jogador do campeonato do mundo de futebol. Pergunto-me se levando eu uma traulitada daquelas ainda estaria aqui a escrever esta bela historia de amor. Mas deixemo-nos de preciosismos. Coitadinho do gigante italiano…qual figura do ERP de Mortal Kombat IV, que só não teve um forte ataque cardíaco com paragem respiratório-torácica porque…no estádio se encontrava Kappinha, a minha ex- mal refeita de uma noite copos e sexo (para desempoeirar tanta teia que já tinha) tida após mais um casamento de ums dos seus 762 flirts. Haja saúde…e gente com dinheiro para gastar em bodas…irra que não me enganei na palavra.

E depois do adeus…e depois de nós…o ficarmos sós…que bonito.

Encontrei a saída que tinha pedido ao Super Guitar: “és um idiota! Entao porque? Porque não tens emenda…eu? Sim, tu. Deves pensar que não te topamos…” sem que conseguisse pronunciar mais uma palavra, do porão de baixo surge a Fala-me-barato, uma piloto experiente que tinha sido campeã do Paris-Dakar em língua portuguesa, e que se tinha tornado na mulher de Super Guitar.

Sempre ouvi muito pela minha reputação criada ao longo de anos a fio com enumeros romances com estrelas de Ali-Hood. A religião para mim sempre tinha sido um elixir, um portentoso liquido de emancipação do corpo e da alma.

Saímos pelo caminho normal em direcção à sub-estação de Alvalade. Fmb era de lá e tinha deixado os seus pais furiosos com mais uma saída estemporênea. Enquanto isso MaFeBoPeMa fazia pela vida e tentava apanhar o sapo que tinha visto na televisão, no anúncio da VW a ser levado por uma mosca. Sem sorte contudo. Foi nessa altura que as comunicações rádio da nossa nave foram novamente activadas: “SeGe, SeGe, preciso de uma saída…e nanana, e não sei que”. SG prontamente desmembrou de alto a baixo o esquema de esgotos da cidade e comunicou de volta: “sai na Av.22 de Maio, junto ao zoo antigo…essa zona esta abandonada…mas cuidado com os abutres!”.

MaFeBoPeMa tem este problema: rapidamente se deixa envolver num problema existencial e zoológico de caça aos sapos e depois ganha a alergia do primeiro beijo.

SeGe e Fmb já lhe disseram varias vezes que tem de começar a diversificar activos. MaFeBoPeMa é dona de uma das maiores capitais de risco do país, mas especializou-se no sector de criação de girinos. Lançou nos últimos 7 anos um conjunto de 34 empresas para o mercado de valores em todo o mundo, sempre neste sector. É uma mulher forte, como costuma dizer. Obcecada por duas coisas: Sapos…e pintar as unhas. Alias a única empresa que não tem nada a ver com sapos tinha sido o seu último LBO: Unhas’são Nossas.

Trrriiiim: Estou? Sim? Vou já ai ter. Era a MaFeBoPeMa…ficou presa. No metro das Pomadeiras…ao que parece, Kappinha tentou mais um ataque bombista. Disse eu aos atónitos pombinhos. SeGe levantou-se e disse: “isto tem de acabar!”. Fmb não aguentou e atirou o 245º dardo no alvo por cima da nossa escotilha da cabine de comando. “Eu vou intervir”. Premonição. A taça era do Italiano.

7.07.2006

Capítulo II

Os Canhões de Navarone

Ontem foi um dia canhão. Foi bom, cheio de balas.

“Para onde vais? Para Queluz. Não quero luz, obrigado. Para onde vais? Queluz. Ah. Onde é isso? Ao pé de Entrecampos. Ah Ok.” tarantino com musica kill bill.

Depois de ter fumado mais um canhão, enquanto dançava ao som dos Gothic Project,um conjunto de 7 músicos de origem nipónico-brasileira de fusão que fizeram um sucesso nos últimos anos por quase todo o mundo, olhei em volta e perdi a noção de espaço e tempo. Dei comigo a penar que estava a aculturar-me ao modus vivendi de KayKay. Olhei para ele e viu-o como sempre alucinado pela metadona que havia tomado antes do concerto por força do seu programa de desintoxicação. MaFeBoPeMa estava impassível com sempre…já era noite e portanto o seu estado de socialização tinha passado para “FumarEnaoMeMexerPorqueMeDoiaPerna”.

Desta vez tínhamos companhia. Um individuo estarnho, pelos no peito (MaFeBoPeMa odeia pelos no peito, ao contrario da minha ultima paixão, Kappinha, que adorava e por quem tinha deixado crescer por todo o meu corpo um verdadeiro matagal) e um inicio proeminente de calvice. A sua postura era um misto de Zandinga com Ney Mattogrosso de Portugal, o que per si deixava logo qualquer um de nós intimidado. AAproximei-me e perguntei se queria fumar o meu canhão. “Olha lá meu paneleiro…não sou desses!”.
Reactivo. Impulsivo. E sobretudo um bocado estúpido. Era a erva que era para fumar. Não o meu “berbequim”.

Saímos pelas traseiras, na esperança de não sermos atropelados pela correnteza de gente que se dirigia para a saída principal. Mas o que nos esperava era uma vaga de altas e inesperadas proporções. Sei que tivéssemos tempo para sacar da prancha, vagalhões de mais de 15 metros irromperam na nossa direcção vindos de todos os lados. Era como se o vento viesse simultaneamente de todos os 4 cantos da rosa dos ventos. “A vida como ela é…como devia ser.” Tanto bom peixe solto e tao pouca rede de qualidade. Recordei os belos tempos de pescaria de miúdo, em que o anzol era pequeno e não me fazia perder a cabeça. “Que Maravilha!”.

Tentamos apanhar um táxi. Impossível. Lembrei-me de sugerir que ao invés, fossemos beber um caipirinha todos no carro de MaFeBoPeMa. “Vamos ao garotas do mar, aquele barzinho com mesas japonesas ali na foz…sabem?” disse MaFeBoPeMa. Anuímos com a condição de demorarmos pelo menos 2 horas. Ok. Lá fomos.

Obviamente estava escrito nas estrelas. O encontro era previsível e não havia como escapar. Bem tentei por os óculos escuros, ainda que de noite pouco servissem, mas la estava a bela da minha ex-relação. Kappinha, no seu esplendor: numa mesa com 5 gajos de porte atlético e músculos firmes, mas sem uma única dose de cultura, mas naquele momento era tudo o que ela mais queria. Com ela uma amiga que já nem me recordava, gira mas gira, e com a qual de certeza maia frente no livro me acabarei por ter que envolver. Chamei à parte MaFeBoPeMa e disse-lhe que Kappinha estava ali – eram amigas de infância, já tinham feito os mesmo gajos mas desta vez a coisa correu mal. Zangaram-se porque eu tinha retirado o cartão do parque onde costumava estacionar o meu S2000 no Martim Moniz da Kappinha e tinha dado a MaFeBoPeMa que tinha ido para um projecto no hotel Mundial e me tinha pedido. Enfim, manias de gajas do tunning.

Mas o melhor estava para vir. Eva estava a chegar num Porche Carrera branco com a sua nova conquista…e ao mesmo tempo, PeloNuSovaco também apareceu, desde logo tranbordando imneso cheito a catim, isto apesar da sua branquíssima cor de pele.

Pensei em agir rápido…quem me pode salvar deste trio? Logo vi. Super Guitar. “Onde andas? Saint martens? Preciso de uma saída!”. Era no cruzamento do BBC com o InRio. Fui a correr.

7.06.2006

Capítulo I

O oráculo (geriátrico) no restaurante do sol nascente

Perder porque há um careca que resolve cambalear com uma bola e derrubar uma vez mais as esperanças de um povo crente e desejoso da sua estrelinha no topo do emblema da federação do seu mais popular desporto, é algo que nos deixa sem forças para sequer nos levantarmos pela manha.

Ontem contudo, e no sentido de afogar as mágoas, na companhia do meu fiel assistente Kasefazem Kasepagam e da minha amiga Maufeitioébompelamanha (MaFeBoPeMa), fomos afogar as mágoas numa deliciosa refeição japonesa, povo que apesar de não ter tombado aos pés dos galos, já tinha levado o suficiente para não se conseguir se quer por em pe há para aí mais de 2 semanas.

Lá chegados, deparamo-nos com cena macabra, à estilo filme tarantino de anos 90. Um velho, talvez iniciado na pratica tantrica do jogo da sardinha, discursava abundantemente sobre o poder da formula mágica que possuía e que causava feitiços nas mulheres de meia idade que com ele partilhavam a mesa.

Pelo meio de um rolo terroristicamente devorado por Maufeitioébompelamanha, Kasefazem Kasepagam (KayKay) disparou o seu olhar assassino de encontro ao velho mestre guru, que desguarnecido de defesas e algo surpreendido teve que retaliar. Fez levantar as suas companheiras e pregou-lhes quatro beijos. A corrente passou e KK esbogalhou os olhos ainda mais. O seu poder condenatório não havia resultado e ele desesperava por uma qualquer outra arma de arremeso.

Enquanto isto, desloquei-me até ao balcão da cozinha para falar com o chefe, Matsumoto QueSiDane. Perguntei-lhe se o dia tinha corrido bem, ao que me retorquiu: “Claro, aqui o meu ajudante de cozinha Teté Henriques sacou um salmão na praça que tem dado excelente conta de si. Apesar de ter que ter utilizado uma faca que o cortou rentinho à perfeição, foi como marcar um golo de penalti numa semi-final do Mundial…sabes?”

Intrigado pus-me a pensar…que mais poderia eu ter sentido naquele momento que não uma estranha sensação de deja-vu? Hummmmm.

Voltei para a mesa, onde o barco japonês de sushi sashimi já tinha sido ardentemente devorado por KayKay e MaFeBoPeMa, que em conjunto se haviam entretido a atirar pedaços de dois crepes que haviam pedido de sobremesa um ao outro, no âmbito de um revival experiencial de jogos infantis a que deram o nome de “jogo da bolacha Maria”.

Pensei numa medida gástrica…quer dizer drástica para esta situação. Mas não me ocorria nada que não fosse o “mata, mata”. Era ainda assim demasiado tarantino e quando assim é duas vezes na mesma noite, é melhor parar.

Bebi o resto de cha verde que tinha na taça com caracteres japoneses que so querem dizer que por muito tempo que passe neste tipo de restaurantes nunca vou ter tanta paciência como a que gostaria, e arrastei KayKay e MaFeBoPeMa um em cada braço para o carro ao fundo da rua, pois o seu estado de embriaguez era de já elevado. “Que noite pensei…so me falta pisar trampa…merda!”. Pisei.